Entrevista: Frei João Romanini, do Correio Riograndense

24 de fevereiro de 2017
Entrevista: Frei João Romanini, do Correio Riograndense

 O tradicional jornal de Caxias do Sul, Correio Riograndense, encerrou sua edição impressa no dia 8 de fevereiro de 2017, mantendo-se somente enquanto veículo digital. Conversamos com Frei João Romanini, Diretor de Redação do jornal. Esta difícil decisão foi tomada depois de muito avaliar e, segundo Romanini, a equipe do Correio Riograndense havia percebido uma crescente ascensão de novos usuários digitais, com pessoas acima de 60 anos passando a utilizar as redes de alguma forma e buscando áreas de interesse.

Confira a entrevista completa:


- Como começou o Correio Riograndense? 

O nascimento do Correio Riograndense, idealizado pelo padre Carmine Fasulo, pároco da paróquia Santa Tereza de Caxias do Sul, e pelo frei Bruno de Gillonnay, coordenador da missão dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul, chegado da França em 1896, foi motivado pela imigração italiana ao Rio Grande do Sul. Um ano depois do primeiro sonho, em 1897, surge O Caxiense, primeiro jornal de Caxias. O veículo defendia a política republicana. Logo entrou em atrito com o vigário, padre Pietro Nosadini, que, de imediato, compreendeu que também precisava de um jornal. Um bolletino seria editado com o nome de Il Colono Italiano a partir de 1º de janeiro de 1898. Em 24 de agosto de 1904, o padre Carmine Fasulo, ex-palotino, assumiu como pároco de Caxias. Em novembro deste ano, a paróquia recebeu a visita de Dom Giovanni Baptista Scalabrini, bispo de Piacenza, Itália. Scalabrini conhece a realidade da colonização italiana e inteira-se dos sonhos do frei francês Bruno de Gillonnay, chefe da missão capuchinha fundada há apenas nove anos. Em 13 de fevereiro de 1909, Fasulo funda o jornal La Libertà. Três meses depois, em 5 de maio, deixa o cargo de pároco e vende o jornal ao substituto, padre Francisco Baldassarre. 

Em Caxias, o jornal O Caxiense, que se intitulava defensor das colônias italianas e órgão republicano, fechou em 28 de abril de 1898 por não interessar ao povo; já o Il Colono Italiano, de Nosadini, fechou em 21 de agosto de 1898 por não interessar aos católicos. 

Em 1904, frei Bruno relatava ao bispo dom Giovanni Scalabrini a necessidade da imprensa para a evangelização: “Trabalhamos para estabelecer com simplicidade, no centro das colônias italianas, uma pequena impressora, que levará periodicamente no seio das famílias, em sua língua materna, uma página do Santo Evangelho, explicada e comentada, uma história edificante, alguns conselhos de agricultura...”, conforme se lê no manuscrito original em francês, datado de 12 de outubro de 1904. Menos de dois meses antes da manifestação a Scalabrini, em 20 de agosto, frei Bruno escrevia ao provincial da Saboia, submetendo-lhe à apreciação o projeto da “fundação em Conde d’Eu de uma pequena impressora”. Inicialmente pensava numa revista mensal para a formação religiosa nas escolas. Também o preocupava a ignorância dos colonos. E concluía: “Mas, sem jornal não se faz nada.” Pretendia comprar uma impressora dos franciscanos sediados em Lages ou uma disponível em Porto Alegre. A autorização veio da França no final de 1904 ou início de 1905. 

Entre o nº. 44 e o nº. 45 do jornal, transcorre um mês. O nº. 45 do La Libertà circula com a data de 15 de janeiro de 1910, editado em Garibaldi e tendo como diretor padre Giovanni Fronchetti. Na capa, é estampada a aprovação episcopal, onde Fronchetti acrescenta ter recebido aprovação verbal de dom Claudio José para assumir a direção do La Libertà, em 27 de dezembro de 1909. Na mesma edição, o novo diretor acha justo que se retome o mesmo “Programma” do La Libertà, que havia enfrentado tantas dificuldades. Reafirma que o jornal será católico, mas não se ocupará exclusivamente de assuntos religiosos. “Anzi, La Libertà sara per eccellenza l’amico, il consiliere, la difesa del colono”. 

Na capa das edições nº. 50, 51 e 52, de fevereiro e março de 1910, há uma chamada anunciando que Il Colono Italiano será o título que o La Libertà assumirá na edição de 12 de março de 1910, quando entrar no segundo ano editorial. La Libertà tinha surgido como “Giornale settimanale del popolo”. Sendo o colono italiano a maioria da população da região, nada mais acertado que o jornal tenha o nome de Il Colono Italiano. 

O ápice das dificuldades do diretor austríaco do jornal (Fronchetti), em Garibaldi, acontece a partir de 17 de abril de 1917, quando o Brasil rompe relações diplomáticas com a Alemanha e a Áustria. Os quatro proprietários – Fronchetti, Capuchinhos, Moreau e Carlotto – reúnem-se às pressas para tomar medidas. A direção fica com o capitalista e construtor Agostinho Mazzini. Logo o chamam de “testa de ferro” que aceitava dirigir um jornal anti-italiano. Mazzini só aguentou até 21 de junho, quando pediu demissão, exigindo o fechamento do jornal. 

Os cotistas se reuniram novamente, não admitindo a morte assim tão estúpida do jornal que tinham. Foi quando o capuchinho frei Caetano Angheben (1885- 1967), há anos colaborador de Fronchetti, propôs que o jornal saísse sem o nome do editor-responsável e com novo título. A ideia foi aceita e a edição de 5 de julho de 1917 levava o nome La Staffetta Riograndense. A partir dessa data, a administração e a redação ficam a cargo dos capuchinhos, embora Fronchetti ainda fosse sócio. Em 23 de setembro de 1918, Fronchetti registra em cartório declaração dizendo que o valor do capital do já Staffetta Riograndense (ex-Il Colono Italiano) é de 15 contos de réis. Também declara que a Sociedade Literária São Boaventura (capuchinhos) entrou no capital inicial com quatro contos de réis e que “por conseguinte a dita Sociedade Literária São Boaventura (Reverendos Padres Capuchinhos) é coproprietária da tipografia do Staffetta Rio-Grandense, pertencentes, acessórios e tudo o mais em proporção ao capital com que entrou e que na mesma proporção tem direito a todos os lucros”. De 1918 a 1921, os capuchinhos adquiriram as cotas que ainda não lhes pertenciam. Dia 12 de janeiro de 1921 é a data da oficialização da compra do jornal pelos capuchinhos, em proposta escrita de cessão de sua parte na tipografia aos mesmos capuchinhos.


- Por quanto tempo foi impresso? 

Foi impresso ininterruptamente desde 1909 até 8 de fevereiro de 2017, semanalmente.


- O que o Correio Riograndense simbolizou na espiritualização dos seus leitores? 

O Correio Riograndense formatou e defendeu causas importantes, não somente na questão da espiritualidade, mas da preservação do dialeto na área da cultura, da organização social, comunitária, cooperativa e agricultura. Ele foi um grande expositor de novas ideias e ideias para seus leitores. No entender das opiniões da última edição, um marco na cultura, formação e evangelização dos imigrantes.


- Como o jornal vê o futuro da imprensa? 

É um futuro incerto, vivemos tempos líquidos, escorregadios e ruidosos. Com o advento da internet, que deu vozes a muitos, o jornalismo e a imprensa precisam reencontrar sua função. Não temos nada claro, só percebemos que ninguém mais quer pagar pela informação: vivemos num mundo que as pessoas pagam caro pelo consumo de bens, mas cultura e informação não são consideradas bens. O jornalista e o jornalismo precisam ser reformulados e repensados dentro deste novo paradigma.


- Ainda será possível manter o propósito informativo com um toque espiritual, agora em plataforma digital? 

Sim, no ruído e no alvoroço da internet. Os tempos exigem que a verdade, a ética, a justiça, a espiritualidade e o debate devem continuar, e a igreja e seu pensamento devem permear também neste universo. Onde as pessoas estão, a igreja e sua mensagem devem estar. Foi este o propósito dos fundadores do Correio Riograndense: ser uma ferramenta de educação para a época, e no digital esta missão continua. Com os mesmo propósitos, porém agora não no papel, mas em outra portabilidade para um público de navegantes, zapeadores, opinadores e migrantes digitais, entre outros adjetivos, para o novo tempo que vivemos.


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